Outra vez o tempo, já comentado
aqui e, indiretamente,
aqui.
Um grande amigo que vocês não conhecem muito sabiamente me fez refletir sobre a singeleza de uma verdade incontestável:
"O dia 15 de setembro de 2007 terminou. Nunca haverá outro."
As implicações dessa simples contestação são grandes e não ajudam muito a curar minha ansiedade sem fim. Não é fim de ano ainda, momento usualmente dedicado a reflexões do gênero, mas eu parei alguns minutos para pensar nos meus passos e fatos recentes:
1980 - Nasci em Floripa/SC.
1984 - Minha memória mais antiga.
1986 - Minha primeira bicicleta.
1987 - Alguns ensaios de empreendedorismo (ou mesquinharia mesmo): alugava revistinhas usadas.
1990 - Me dedico à natação, ao estudo da língua inglesa e da matemática. Pouca coisa mais me interessa. Não sou aceito nos grupinhos, não encaixo, não tenho roupas legais, não entendo o mundo.
1991 - Começam as transformações que me fazem recusar aquele corpo como meu. Espinhas, barba, mãos e pés imensos. Tudo contribuía para a feiúra crescente.
1992 - Meu prognóstico: não passaria dos 20, quiçá dos 22. Saio de uma escola particular, razoável, para uma escola pública, péssima. Nunca mais voltei a ter bons estudos. Aliás, conto nos dedos os bons professores que tive nos anos seguintes.
1993 - Madonna e Michael Jackson vêm ao Brasil. Me lembro de estar deitado no quartinho do quintal da minha casa, ouvindo ela cantando, ao vivo, e eu chorando por não poder estar lá.
1994 - Pesadelos constantes com a piscina do clube no qual eu nadava (já estava quase entrando para a equipe de competição) e o ódio mortal daquele frio que fazia nos invernos florianopolitanos me fizeram largar a natação. Trabalhei dois meses em uma lanchonete com o intuito de juntar um $$ para comprar um teclado. Começo a vasculhar os discos dos vizinhos em busca da música dos grandes mestres.
1995 - Ano importante: Começo os estudos de piano na Udesc. No meio do ano me mudo para Guaratinguetá - chovia em Floripa -, de ônibus, deixando para trás a segurança, deixando aqueles que pensava que seriam meus amigos para sempre - errei - e com a certeza que nunca mais seria o mesmo - acertei.
1996 - Meu primeiro festival de música: me lembro de chorar a minha mediocridade por duas semanas. Não tinha amigos, não lia, não ia ao shopping, e só tinha ido ao cinema para ver filmes dos Trapalhões quando era pequeno. Minha primeira namorada, meu primeiro beijo. Lembro da lua naquela noite.
1997 - Chego em Brasília, de ônibus - chovia -, sozinho, no dia do meu aniversário. Começo a conhecer pessoas que me incentivam intelectualmente.
1998 - Saio do meu quarto sem janela no cruzeiro velho e vago sem rumo por horas; queria chegar onde nada importasse; chovia; deito no chão da rua por um bom tempo e espero o tempo agir; nada aconteceu. Entro na UnB, depois de dois vestibulares fracassados.
2000 - Tendinite. 6 meses sem tocar. Para esquecer a dor, eu canto.
2002 - Formatura. Conheci o amor.
2003 - Fui feliz e sofri por amor.
2004 - Por amor, larguei tudo e fui para o além-mar. 3 meses apenas para ver que tudo aquilo era de vidro e se quebrou. Volto para o Brasil, com uma mochila apenas, e sem coração.
2005 - Ainda sofro por aquilo tudo... Sinto o peso de 1/4 de século
2006 - Tento consertar o anel, sem sucesso. Desisto do anel e do coração.
2007 - Já? 27 anos, sem rumo, lost e sem Lost, que só tem no ano que vem!
Conclusão: Nesse quarto de século a essência desgarrou-se do corpo. Agora ela vaga sozinha, em busca da sua matéria, enquanto esta se entrega aos prazeres momentâneos. Os outros apenas vêem em mim o que é carne e resultado de experiências carnais.
Terá o céu, o inferno, o mar e as estrelas quem reconhecer em mim a essência.